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A Separação [Jodaeiye Nader az Simin]

24/01/2012


Na cena inicial de A Separação, longa favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro, um casal expõe para o juiz os motivos pelos quais estão brigando e porque a mulher deseja se separar o mais rápido possível. Simin (Leila Hatami) quer se mudar do Irã por achar que a filha de onze anos deve crescer em um lugar melhor. Nader (Peyman Moadi) não compartilha da mesma visão e alega que não pode abandonar o pai, que sofre de Alzheimer. É uma longa cena sem cortes em que o diretor Asghar Farhadi, ao colocar a câmera no lugar do juiz e os atores falando para ela, já estabelece a posição que o espectador terá ao longo do filme.

Mas A Separação não se foca somente no dilema vivido pelo casal e sim nas consequências diretas vindas deste. Sem a esposa em casa, Nader precisa achar alguém que possa cuidar do seu pai. Aparece então Razieh (Sareh Bayat), mulher grávida que se dispõe num primeiro momento a fazer o trabalho, mas não tem a autorização do marido. Isso é apenas o início de uma série de embates entre personagens brilhantemente construídos pelo roteiro (escrito pelo proprio diretor) e por atores em trabalhos tão entregues que em nenhum momento você deixa de acreditar que aquelas pessoas realmente existem.

O realismo visto na cena inicial se estende ao longo do filme, conferindo às situações um certo ar documental. Personagens falam ao mesmo tempo e gritam frases que às vezes nem se completam, praticamente não há trilha sonora e os sons são apenas diegéticos. Ao mesmo tempo, o roteiro cria diálogos de grande sinceridade que mais parecem improvisados e é inteligente ao quebrar a expectativa tirando o foco do que poderia ser apenas uma briga de casal e depois inserindo elementos que parecem triviais mas serão importantes lá pra frente. Assim, um simples saco de lixo que se rompe pode ganhar uma inesperada relevância, já que nada por aqui surge à toa.

No entanto, o principal mérito de A Separação é a sua trama que ganha complexidade aos poucos, com personagens tão ricos e verdadeiros que não permitem ao espectador tomar partido quando eles passam a se atacar. Não espere ofensas pessoais típicas de quem está se separando ou de quem se faz de vítima para lucrar. Aqui, são todos dignos em suas posições, humanos em seus atos e possuem ideais dos mais valorosos. Fica difícil julgá-los até quando os próprios admitem seus erros, restando a nós apenas torcer para que consigam por fim a uma briga que só trará mais culpa e sofrimento. Eles com certeza não merecem isso.

E mesmo contando com alguns elementos locais, como tradições culturais e religiosas iranianas, esta é sem dúvidas uma história universal. Culpa, raiva, egoísmo e dor são comuns a todos nós.
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8 Comentários leave one →
  1. 25/01/2012 15:30

    Atuações impecáveis, com destaque para Peyman Moadi e Sareh Bayat (Nader e Razieh) que por muito tempo do filme representam os lados opostos dos conflitos e que dão uma dignidade incrivel aos seus papéis. E a direção do Asghar Farhadi é inteligentissima pq só parece discreta, mas deliberadamente interfere em pontos importantes, negando informações aqui e ali, manipulando o drama de forma muito hábil.

    Realmente um grande filme!

  2. 25/01/2012 18:19

    E olha que esse é só o segundo filme do Peyman Moadi e o primeiro da Sareh Bayat. Farhadi se mostra um grande diretor de atores e um ótimo roteirista.

  3. 28/01/2012 15:42

    Terá post meu sobre o filme esta semana. De fato, é um grande filme universal!!!

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