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Redenção [Machine Gun Preacher]

21/12/2011


A visão hollywoodiana sobre as mazelas do terceiro mundo sempre me pareceu um pouco condescendente. Diferentemente de longas de outros países, como o britânico O Jardineiro Fiel ou o dinamarquês Em um Mundo Melhor, que usam o tema para falar também de outros assuntos, na maioria dos filmes feitos daquele lado da América um branco de classe média alta resolve fazer um sacrifício enorme para “salvar” algo ou alguém que não recebe ajuda de mais ninguém. Às vezes, fica a impressão de que a mensagem do filme é a de que o mundo precisa dos americanos e somente eles podem ajudá-lo. E embora com menos intensidade, isso se repete um pouco neste Redenção.

A história se baseia na vida de Sam Childers (Gerard Butler), um ex-ladrão e traficante que muda de vida quando passa a frequentar uma igreja por influência da esposa (Michelle Monaghan) e da mãe (Kathy Baker). Em uma das missas, ele conhece um pastor que trabalha como voluntário numa vila na África e resolve viajar até lá, onde constrói uma igreja e um orfanato e vira alvo de insurgentes em meio a guerra civil no Sudão.

O primeiro problema é o ritmo. O diretor Marc Forster e o roteirista Jason Keller optaram por contar rapidamente a vida de Sam pré-Sudão e investir mais tempo na luta do protagonista em terras africanas. Assim, o longa possui uma primeira parte onde há uma história grande a ser contada em pouquíssimo tempo. Numa cena, Sam surge esfaqueando uma pessoa e dois cortes depois aparece como um fiel na igreja da esposa. A mudança de comportamento é imposta pela montagem, sem dar tempo e elementos para que espectador possa sentí-la.

Por outro lado, a partir do momento em que Sam parte para o Sudão, a narrativa torna-se ligeiramente lenta. A cada viagem de ida e volta, o roteiro parece querer dizer uma coisa, como o choque entre as diferentes realidades, a perda da intimidade com a família, o desejo de ajudar cada vez mais e a forma como Sam assimila a sua experiência às pregações que faz na igreja que construiu. O roteiro diz pouco com muito, tornando o vai-e-vem cansativo. São tantas viagens que Sam poderia facilmente ter ficado mais em apenas um lugar economizando os 5 mil dólares de que precisa para manter seu orfanato.

O único acerto reside, então, na exploração do paradoxo contido no nome original, Machine Gun Preacher. Até que ponto essa mistura entre guerra e religião pode ser positiva? Ou a própria colocação dos dois lado a lado pode ser perigosa? Sam alterna momentos de fanatismo com outros de negação a Deus (sempre na base da gritaria e sem um pingo de sutileza), algo que seria natural frente às brutalidades que presencia. Mas o filme mostra que esse desejo de proteger a todo custo e a crença de que há uma missão a cumprir é um terreno perigoso, tornando as diferenças entre Sam e seus algozes sudaneses bem menores do que se imagina.

Apesar disso, o nome nacional é bem oportuno, já que a ajuda humanitária dada pelo protagonista parece mesmo um mero instrumento de redenção. Mais do que isso, não é um longa tão inspirador como são, por exemplo, os filmes europeus citados acima. Sam Childers certamente faz um grande trabalho na África, disso não restam dúvidas. Apenas sua história não foi devidamente contada.
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