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A Árvore do Amor [Shan zha shu zhi lian]

24/10/2011


Assistido durante o Festival do Rio 2011

Durante a Revolução Cultural da China na década de 60, havia uma lenda sobre um espinheiro que afirmava serem suas flores vermelhas e não brancas, como o esperado, devido aos corpos de heróis da guerra sino-japonesa que foram enterrados ali e nutriam a planta com o seu sangue. A história contada logo no início de A Árvore do Amor é um exemplo da lavagem cerebral nacionalista a que eram submetidos os jovens enviados pelo presidente Mao Tsé-Tung para as áreas rurais da China com o objetivo de serem “reeducados”.

Uma delas é Jing, moça de origem humilde cujo pai está preso por ser capitalista e que carrega a obrigação de conseguir uma vaga como professora e assim garantir o futuro da família. Pressionada e sobrecarregada por todos os lados para “fazer jus” a esse cargo na escola, Jing se apaixona por Sun, o filho de um militar, e o amor dos dois pode comprometer o sucesso da moça.

Apesar de sempre representar um empecilho para a felicidade do casal protagonista, o contexto histórico é observado pelo diretor Zhang Yimou sem nenhuma vilanização clara, evitando que o filme se torne uma espécie de planfeto anti-maoísta. Assim, mesmo as cenas que ilustram a rigidez da rotina de Jing ou o culto à personalidade imposto pelo líder chinês permitem que o espectador tire suas próprias conclusões. Mais do que isso, a abordagem do contexto é feita de forma tão orgânica que nunca afasta a atenção da real intenção do filme: contar uma história de amor.

Durante boa parte da produção, diretor e montador optaram por cenas curtas e pela utilização do fade out, o que confere ao filme um certo ar de flashback, como se alguém estivesse contando ou relembrando aquela história. O efeito é acentuado pela inserção de letreiros com citações do romance no qual o roteiro foi baseado, que terminam por acelerar uma história que dura o tempo que um amor tão puro leva para surgir.

A aproximação de Jing e Sun é contada com doçura e delicadeza ao mostrar o constrangimento com que a moça vê os pequenos avanços do rapaz e a reação sempre compreensiva deste, como na belíssima cena em que os dois seguram lados opostos de um galho (porque não podem a princípio se tocar) e aproximam suas mãos aos poucos. Tudo visto a partir do reflexo nas águas do rio sobre o qual caminham.

No entanto, um dos maiores trunfos do filme está na forma com que Jing e Sun conseguem momentos de felicidade e esta é sistematicamente quebrada pelas diferenças e adversidades que enfrentam. Mesmo que isso provoque uma inegável sensação de perda ao final, a lenda do espinheiro citada lá no início desse texto é lindamente adaptada para que essa felicidade transitória possa finalmente se estender, mesmo que simbolicamente.
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3 Comentários leave one →
  1. Quintanilha permalink
    23/12/2011 9:21

    Um filme muito sensível e que nos permite conhecer um lado obscuro daquele tempo vivido pelos chineses. Não perca

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