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Caminho da Liberdade [The Way Back]

13/05/2011


Tem um momento no primeiro terço de Caminho da Liberdade em que Mr. Smith, personagem de Ed Harris, diz para o protagonista Janusz, vivido por Jim Sturgess, que a sua maior fraqueza é a bondade, já que o segundo poderá carregar o primeiro quando ele precisar. Os dois fazem parte de um grupo de presos políticos durante a Segunda Guerra Mundial, trancafiados numa prisão no meio da Sibéria, e que resolvem fugir andando, enfrentando fome,  sede, frio, e o calor do deserto até que consigam sair do território soviético. Apesar de conter uma história de sofrimento e superação, o longa ganha fica muito melhor quando foca na personalidade e no relacionamento entre os seus personagens, como na cena citada acima. Por isso, é uma pena que isso ocorra tão poucas vezes, comprometendo sensivelmente o resultado final.

O problema já começa com a quase total falta de apresentação de personagens. Janusz é mostrado como um polonês que costumava criticar o partido Stálin e todo o partido comunista, e foi preso depois que a própria esposa o denunciou. Já o personagem de Colin Farrel surge como o clássico detento que intimida os demais pela violência e exigirá participar de qualquer plano de fuga. Os demais aparecem quase subitamente, sem sequer sabermos seus nomes.

Essa introdução falha é prejudicial para o envolvimento do espectador em todas aquelas provações vividas pelos personagens. Quando um membro do grupo é deixado para trás, ao invés de sentir pena, ficamos sem entender porque os demais sofriam tanto se mal o conheciam. E é  exatamente  por isso que os momentos em que os fugitivos interagem e falam de si dão força ao filme, quando passamos a conhecê-los mais e consequentemente, a torcer para que consigam juntos alcançar seus objetivos.
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A entrada da personagem da Saoirse Ronan até tenta aparar um pouco essa aresta, quando aparece perguntando sobre o passado dos companheiros e apresentando-os uns aos outros, ou então a divertida cena em que dois deles divergem sobre uma receita culinária. Mas  isso é muito pouco perto da quantidade de diálogos nos quais eles discutem qual caminho seguir. Além disso, o roteiro não consegue transmitir nenhuma mudança de comportamento ou personalidade durante os longos meses em que o grupo viaja, algo que seria esperado diante das adversidades que enfrentam juntos.

Porém, é preciso ressaltar o grande trabalho logístico feito pelo diretor Peter Weir, que filmou em dezenas de locações extremamente distintas, que vão das montanhas nevadas à imensidão do deserto, tudo com uma precisão irretocável. Além da maquiagem, merecidamente indicada ao Oscar, que transmite com fidelidade a mudança física experimentada pelos personagens.

O diretor acertou também com passagens que remetem à transformação dos homens em animais devido ao instinto de sobrevivência. A maior prova disso é o momento em que eles espantam um grupo de lobos que comia um outro animal e passam a devorar o bicho exatamente da forma como os predadores faziam antes. É uma cena de um simbolismo enorme, juntamente com outras em que o grupo come diversos animais que estão longe de pertencerem ao seu cardápio habitual, como cobras e lesmas.

Talvez se Caminho da Liberdade tivesse um roteiro que construísse melhor seus personagens, ele seria o filme emocionante que almeja ser. Sem isso, ele é apenas um épico bem feito sobre superação e força de vontade.
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