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Antes do Amanhecer [Before Sunrise]

23/04/2011

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Muita gente defende que o Cinema se divide entre os “filmes para pensar” e os filmes feitos para o espectador “comum.” Além do fato de que essa é uma análise extremamente superficial, há diversos longas que se encaixariam nessa duas categorias, como este belíssimo Antes do Amanhecer. Trata-se de uma obra que conta uma linda história de amor, isto é, um tema universal e que agrada a todas as plateias, mas também é uma grande conversa cheia de filosofia e sentimentos profundos dos dois personagens principais.

Jesse (Ethan Hawke) é um jovem americano viajando pela Europa e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa voltando para Paris. Os dois se conhecem em um trem e após perceber uma afinidade imediata, ele a convida a descer em Viena e passar o dia juntos a fim de se conhecerem melhor.

Logo no princípio, fica evidente a química entre o casal, com diálogos inteligentes e um roteiro que consegue abordar vários sentimentos sem nunca soar piegas. Na verdade, o que aproxima aquele casal não é a atração física, e sim o conforto e a segurança que encontram para conversar um com o outro desde a primeira troca de palavras. Além de seus sentimentos e desejos, os dois têm espaço para falar de destino/livre arbítrio, solidão, sexo e diversos outros assuntos, tudo com uma sinceridade e espontaneidade raras.

Outro grande acerto aqui é a fluidez. É possível perceber a forma gradual com que a dupla ganha intimidade e se aproxima. Ver um casal se conhecer e se apaixonar assim, de forma tão realista, é com certeza algo peculiar desse filme. O diretor ainda aproveita a beleza da cidade de Viena para sempre envolver a dupla em ambientes românticos, como a margem do rio, e outros mais particulares, como o cemitério abandonado.

É interessante notar também a forma como o roteiro aborda a questão razão vs. emoção. Primeiro, aparecem as diferenças entre o casal em dois momentos principais: quando a cartomante lê a mão de Celine e depois quando o mendigo escreve um poema para eles. Em ambas as situações, Jesse mostra-se mais cético e crítico, enquanto que Celine é mais crédula e se deixa envolver pelas palavras da cartomante e do poeta. O filme ainda apresenta a questão ao casal no terço final, quando eles se vêem obrigados a optar entre a razão e o coração.

É um filme cheio de detalhes e sutilezas, cuja melhor parte não tem uma palavra sequer. Em tal cena, o casal encontra-se apertado numa cabine ouvindo um disco de vinil e envolvido por uma música romântica. Eles sabem, e nós do lado de cá da tela também, que naquele exato momento estão se apaixonando.

Fica o desejo de vivenciar uma história como essa, tão romântica, e ao mesmo tempo tão real e crível. O final ainda testa o cinismo e o romantismo do espectador. Lindo demais.
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8 Comentários leave one →
  1. 23/04/2011 15:03

    Um encanto de filme. Só tenho a reiterar suas colocações: quanto a uma dinâmica extraordinária entre os atores, a sensibilidade e entendimento da direção e do texto e a fluidez da história. Tão envolvente, inteligente e bonito, e que continua de forma arrebatadora em ANTES DO PÔR-DO-SOL.

    • 23/04/2011 21:06

      Eu escrevi esse texto pra um trabalho há alguns meses, masprefiro o Antes do Pôr-do-Sol, menos romântico, mas bem mais profundo.

  2. Ednilson Silva permalink
    09/06/2014 13:25

    Excelente sua critica, eu adoro esse filme e tenho um carinho enorme por ele, sem dúvida um dos melhores filmes do ultimos 20 anos e o melhor do seu gênero com toda a certeza, uma obra prima profunda e reflexiva…Abraço..

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