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Homens e Deuses [Des Hommes et des Dieux]

14/04/2011


Nos últimos anos, têm crescido na França, país onde vive a maior comunidade islâmica da Europa, os casos de xenofobia contra os seguidores dessa religião, inclusive com a discussão de leis que ferem as tradições muçulmanas, acirrando ainda mais o choque entre  as culturas do país. Por isso, é se aplaudir que este Homens e Deuses, candidato francês ao Oscar 2011, trate com um enorme respeito a religião islâmica e sirva até como um panfleto anti-xenofobia, pregando a convivência entre diferentes crenças.

Escrito e dirigido pelo francês Xavier Beauvois, baseando-se numa história real, o longa faz uma imersão na vida de oito monges que vivem num povoado na Argélia em 1996, local de maioria muçulmana. Perfeitamente integrados àquele ambiente em que vivem há anos, os religiosos passam a se sentir ameaçados por um grupo de extremistas que a cada dia tomam atitudes mais radicais, apavorando os moradores do local.

Pode-se notar desde o princípio uma tentativa de transmitir para o espectador o ritmo com que vivem aqueles monges e seu dia-a-dia. Levando suas vidas de forma extremamente simples, o filme acompanha calmamente os afazeres domésticos e as preces dentro do mosteiro, ressaltando a calma e o silêncio que dominam suas vidas. Assim, não há o emprego de trilha sonora, os diálogos são curtos, a montagem utiliza poucos cortes e a fotografia muitas vezes contempla o local, destacando o clima bucólico em que vivem os personagens.

Enquanto isso, a harmonia com que os monges cistercienses se encontram em meio a população islâmica é constantemente evidenciada. Um deles presta serviços médicos em uma pequena clínica e todos são publicamente admirados pelos habitantes da região, que cresceu justamente em torno do mosteiro. Ao serem informados dos últimos acontecimentos envolvendo grupos radicais, eles vão debater justamente com líderes religiosos islâmicos, quando fica claro a cumplicidade entre as duas crenças. Alguns se referem ao povo como “rebanho” e chegam a proferir trechos inteiros do Alcorão.
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Toda essa relação justifica, em seguida, o dilema em que os religiosos se encontram, quando precisam decidir se voltam para a França ou se permanecem no local mesmo com as constantes ameaças de terroristas. Sofrendo pressão do governo argelino para deixarem o país e da população local que implora pela permanência, o longa mostra, aos poucos, que a batalha travada ali é interna, entre o instinto de proteção e  suas missões como sacerdotes.

O mais interessante de Homens e Deuses é a forma como aqueles monges vêem o problema que enfrentam. Para eles, seus objetivos como sacerdotes e sua obrigação para com o “rebanho” que vive ali pesam mais do que sua segurança. Fora de lá, é como se suas existências não valessem a pena e acaso algo ocorra a eles, terá sido parte da missão recebida por seu Deus neste mundo. Por isso, a sequência em que todos jantam após terem tomado sua decisão, remetendo à última ceia, talvez seja a mais emblemática de todo o longa.

Ao destacar em seu final, com um discurso emocionante, o modo como a população islâmica é vista pelos monges católicos, o filme expõe as consequências que a leitura distorcida dos livros sagrados pode acarretar e faz uma ode a tolerância e ao convívio das diferentes crenças. Homens e Deuses pode até, quem sabe, mudar a visão que alguns têm das religiões. Amém.
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