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Reencontrando a Felicidade [Rabbit Hole]

17/03/2011


O ator, diretor e produtor John Cameron Mitchell tem um vasto currículo de trabalhos em filmes e séries de TV, mas só passou para o outro lado das câmeras em duas ocasiões: primeiro com Hedwig – Rock, Amor, Traição, um musical colorido, exagerado e psicodélico; e posteriormente com Shortbus, uma obra underground, feita nitidamente para chocar com seu alto conteúdo sexual. Por isso, é de se estranhar que Mitchell tenha escolhido comandar este Reencontrando a Felicidade, um filme mais simples, contido e profundo.

O mesmo pode ser dito do roteirista David Lindsay-Abaire, responsável pelos scripts de longas infanto-juvenis como Robôs e Coração de Tinta. Aqui, ele faz uma adaptação de sua própria peça e demonstra uma enorme sensibilidade ao contar a história de Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Echart), um casal que após oito meses da morte do único filho pequeno, ainda tenta lidar com a dor e encontrar uma forma de seguir em frente.

Becca é apresentada desde o primeiro momento como uma pessoa triste mas não exatamente de luto. Ela quer voltar a ter uma vida normal, ou pelo menos aparentar ter. Participa de um grupo de ajuda com outros pais, mas não aceita qualquer menção a Deus, seu sofrimento a deixou absolutamente cética. Por ser dona de casa, ela foi a que teve a rotina mais abalada e  procura outras ocupações para fugir da presença que o filho mantém na casa. Becca ainda evita a presença de outras pessoas, já que a felicidade alheia a incomoda e isso é posto à prova quando a própria irmã a comunica de que está grávida. Ela quer ficar feliz com a notícia, mas num primeiro momento não consegue.

Por outro lado, Howie aparenta não ter tido seu dia-a-dia alterado e executa suas atividades sem grandes sinais da tragédia  por qual passou. Tem a intenção clara de voltar a ter uma vida normal com a esposa, como no momento em que tenta seduzí-la para que voltem a fazer sexo. No entanto, o roteiro acerta ao mostrar a dor que ele ainda sente ao exibí-lo insistentemente assistindo a um vídeo em que brinca com o filho. Seu equilíbrio é apenas aparente, já que explode exageradamente em dois momentos em que percebe algo errado em relação à memória da criança. Howie ainda deseja ter outro filho, como se essa nova alegria viesse a apagar o sofrimento por qual o casal passa. Já Becca tentará fazer tal substituição mais adiante, só que de forma inconsciente e bem mais sutil.

Aliás, a sutileza aqui está presente na apresentação dos personagens e também na forma como a tragédia ocorrida é contada, de forma natural e sem nunca parecer didática. Mitchell optou ainda por uma direção que não é fria, mas ao mesmo tempo é contida, abrindo espaço para diferentes emoções do espectador e para o grande trabalho do elenco, principalmente de Nicole Kidman, que aqui traz uma grande atuação depois de anos com uma carreira em decadência.

Reencontrando a Felicidade (o péssimo título brasileiro deturpa completamente a alma do longa) não tem a pretensão de apontar um caminho e nem fazer um estudo complexo sobre o tema. Mas possui ótimas atuações de atores vivendo personagens que reagem de formas diferentes e críveis a uma tragédia real. E isso faz dele uma obra no mínimo interessante.

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