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O Discurso do Rei [The King’s Speech]

20/02/2011


Desde pequeno, quando ouvia a expressão “filmes de Oscar”, logo pensava em superproduções de época,  cenários grandiosos, batalhas inesquecíveis, músicas emocionantes, histórias de amor, superação e coragem que duravam anos e se tornavam inesquecíveis para o público em geral. No entanto, em suas últimas premiações, a Academia vinha na contramão dessa tendência, laureando filmes contemporâneos, alguns de orçamentos modestos e muitas vezes empurrados pela crítica especializada. Se não me falha a memória, o último filme com “cara de Oscar” a levar o prêmio principal foi Chicago, em 2003. Desde então, até os indies têm tido cada vez mais espaço.

No entanto, eis que em 2011, ele está de volta. O Discurso do Rei, o favorito do ano, preenche com louvor todos os requisitos para se tornar um exemplar dos clássicos “filmes de Oscar”. Pra quem não sabe, trata-se da história real do Rei George VI (Colin Firth), que desde pequeno sofria de gagueira e ao perceber que poderá se tornar o monarca da Grã-Bretanha, precisa de uma vez por todas resolver o problema para poder liderar o país durante a guerra. É quando sua esposa (Helena Bonham Carter) encontra um médico australiano (Geoffrey Rush) que diz poder curá-lo se ele realmente estiver disposto a receber ajuda.

Por tratar de temas como amizade e superação, a história por si só já poderia cair numa obviedade sem tamanho. Mas os realizadores aqui resolveram ir além e fizeram um filme que segue totalmente a cartilha do gênero. Estão lá a estranheza inicial do primeiro contato, o florescimento da amizade, a primeira briga e o clímax final que é previsível desde o primeiro minuto. Tudo muito bonito, bem feito, mas sem um pingo de ousadia na forma (montagem e fotografia, por exemplo, são as mais clássicas possíveis) e no conteúdo (quase todos os personagens são unidimensionais).

Trabalhando com um roteiro pasteurizado, o diretor Tom Hooper nunca parece se esforçar para fazer um filme menos óbvio, imprimir alguma marca ou refinar seu estilo, limitando-se a contratar um grande elenco e uma ótima equipe de profissionais. Ou seja, ao realizar um longa tão redondinho e claramente encomendado para ganhar prêmios, seu trabalho de direção passa batido e acaba não fazendo a menor diferença.
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Porém, O Discurso do Rei é, de fato, um bom filme. Seus melhores momentos surgem da química e da atuação de Colin Firth e Geoffrey Rush. O primeiro se destaca com um personagem cujas cenas sempre têm a função específica de mostrar certa face da personalidade do rei. Além disso, Firth consegue fazer de George VI o único personagem tridimensional do longa, já que se trata de uma pessoa extremamente poderosa, mas que se sente vulnerável e fraca na maior parte do tempo. Já Rush alterna com perfeição os momentos em que o médico exibe uma faceta cômica,  quando o roteiro força a barra para fazer rir, com aqueles em que serve de apoio ao monarca. Por fim, Helena Bonham Carter não teve material para uma grande performance, o que torna injustificável sua indicação a tantos prêmios.

O longa é atraente para o público em geral por ter um protagonista que vence todas as dificuldades e uma amizade que dura a vida inteira, além de utilizar bem todos os recursos para inserir as emoções desejadas no espectador, principalmente a trilha sonora de Alexandre Desplat, que realmente chama a atenção e não é tão óbvia quanto os demais aspectos técnicos.

No entanto, é lamentável que a Academia prefira um filme tão burocrático e esterilizado a diversas outras obras bem mais ousadas e relevantes, representando um grande retrocesso no entendimento daquilo que existe de melhor na arte cinematográfica. Curiosamente, entre os produtores do filme, estão os irmãos Weinstein, aqueles que praticamente compraram o Oscar para Shakespeare Apaixonado em 1999. Prova de que, na verdade, nada mudou nesses últimos anos.
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