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Trabalho Interno [Inside Job]

01/03/2011


Logo no início de Trabalho Interno, documentário vencedor do Oscar desse ano, é feito um pequeno estudo de caso sobre a Islândia, país super desenvolvido, com alta qualidade de vida, baixa criminalidade, sistemas de saúde e educação exemplares e que foi levado à falência depois de um processo de desregulamentação e flexibilização de investimentos. Antes uma nação cuja maioria da população pertencia a classe média, a Islândia tornou-se um lugar de banqueiros milionários e com um alto índice de desemprego.

O caso acima é fundamental para se entender posteriormente as razões que levaram à  mais recente crise econômica mundial, e é esse justamente o objetivo do longa: mostrar ao espectador o longo processo que teve seu estopim na quebra do banco de investimentos Lehman Brothers em setembro de 2008. Charles Ferguson, diretor, roteirista e produtor do filme, vai longe na sua missão. Começa explicando, ainda que superficialmente, como era o sistema financeiro americano desde a crise de 1929 e as mudanças sucessivas permitidas por governos omissos e reguladores com uma agenda própria.

A total compreensão deste complicadíssimo processo esbarra em dois pequenos problemas. Em alguns momentos, a narração (feita pelo competente Matt Damon) e a montagem são rápidas demais, não oferecendo tempo suficiente para a assimilação de tantas informações, datas e nomes. Os leigos ainda são bombardeados com expressões e termos cuja definição é desconhecida e a tradução, equivocada.

Por outro lado, se alguns detalhes podem passar despercebidos, a essência da mensagem transmitida é clara para aqueles que dedicam um mínimo de atenção. Ferguson enriquece sua obra ao trazer dezenas de entrevistas com os mais diversos profissionais, não só aqueles que trabalham diretamente no mercado financeiro, lobistas, funcionários do Federal Reserve (o Banco Central dos EUA), corretores, políticos, mas também de um psicólogo especialista em tratar executivos de Wall Street e uma cafetina responsável por providenciar as festas dos empresários de alto escalão.

Trabalho Interno trata também de questões desconhecidas da maioria do público, como o fato de o governo americano ter a integridade comprometida, já que diversos cargos de chefia dos órgãos reguladores são preenchidos por ex-executivos de bancos com os quais ainda mantém relações, trabalhando como consultores (e recebendo milhões de dólares por ano). Faz ainda um alerta sobre a manutenção no poder dos responsáveis pela crise, mesmo após o estouro e a mudança no governo federal. Quando perguntado por que não foram realizadas as diversas reformas  no sistema financeiro, tão prometidas por Barack Obama durante sua campanha, um ex-funcionário do Federal Reserve é curto e grosso: “É um governo de Wall Street.”
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Ferguson vai além e faz uma pequena comparação entre o ramo de tecnologia e o mercado financeiro. Chega a dizer que empresas como Google, Apple e Microsoft nunca se vêem envolvidas em atividades criminosas, enquanto os bancos estão constantemente enfrentando escândalos, como o financiamento do programa nuclear do Irã ou a lavagem de dinheiro para ditadores ao redor do mundo.

Como se não bastasse, o longa ainda demonstra preocupação com o mundo acadêmico americano, já que diversos mestres e doutores de grandes universidades como Harvard e Columbia, escrevem artigos e livros defendendo a desregulamentação do sistema, algo que beneficia especuladores e bancos de investimento, mas não avisam seus leitores que seus principais ganhos vêm justamente de trabalhos como consultores dessas insituições. Alguns são entrevistados, gerando os momentos mais constrangedores do filme, já que o argumento aqui é irrefutável.

Mesmo com uma estrutura bastante convencional e um certo excesso de didatismo, Trabalho Interno traz questões tão relevantes que sua mensagem termina por compensar esses defeitos. Se no final o filme demonsta um grande pessimismo e não traz uma solução muito palpável, há de se levar em conta a complexidade do sistema e a existência de um governo conivente e corrupto que salva as empresas com o dinheiro público, justo daqueles que mais sofrem com as consequências das ações de executivos inescrupulosos. Mas como culpar a ganância quando a própria lógica do capitalismo a estimula?

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